18.5.06

A fila da frente causa-me um certo incômodo. O que vejo, vejo através de esferas juntas lado a lado. Encaixada, dialogo com a poltrona. Ela não me abraça por inteiro. Eu, desconfortável para poder ser aqui.
O acento é macio. Sem que eu me desse conta de quando acontecera, passou a ser quante. Louvada troca de calor entre corpos! - Essas coisas assim que nos contam sem poesia no colégio e que a gente nunca mais esquece sem precisar lembrar todos os dias. Eu acreditei. Dúvida? Experimente. Assim que funciona a verdade: você repete e o resultado é a forma já premeditada, constatada por alguém que chegou antes e prestou este favor à humanidade. Repetição de procedimentos, repetição de resultados. Eu nem percebi, mas a poltrona tinha agora o meu calor e eu o dela. Somos uma só.
Esqueço a figura estática, ludibriada por aquele que fala por entre as esferas irritantes e cabeludas. Olho para o lado, não o vejo mais. Está escuro. Esse riso não me pertence, não é meu esse riso vizinho. O meu brinca comigo e se esconde. Caiu por debaixo da poltrona e saiu rolando. Me inclino, me envolvo com o chão, mas a penumbra mora lá. Pupilas arregaladas! Reflexo inútil, já que olho grande ou pequeno não tem relevância quando se é cego. Aonde e quem diabos levou o meu?
A poltrona puxa-me de volta e me reencosto abruptamente contra o que me dá limite para que eu não caia para trás, pernas para cima, depois estatelada. Todos rirem e eu, então protagonista, continuar a procura pelo meu espirituoso e lúdico?
Ela me segura com força, puxa-me e dói. "Ai" xôxo, como quem tem pena da própria situação. Dialogo com a poltrona e tento entender seus motivos. Eu sou ela e ela eu. Esqueceu a nossa simbiose térmica? Ela me responde.
- Eu, sólida.
Olho para o lado e fito aquele boneco animado interagindo com o falante inter-esférico.
- Solidão.

10.5.06

A Construção [da Imagem] do Objeto


Partículas suspensas, divisíveis, que flutuam sobre as cabeças iniciadas...
Construir imagem exige um certo trabalho, muitas vezes não percebido, primeiramente automatizado e árduo a medida em que as folhas do calendário caem sutileza abaixo. Cansaço retardatário! Antes, a surpresa.
Complexidade para aquelas cabeças iniciadas; iniciadas no processo de composição da obra de arte, peça por peça. Aqui, o que não se encaixa é grudado com pinceladas pretensiosas de cola branca. Logo se esquece o desfalque.
No ápice da certeza estrutural, ilusoriamente formada, desmoronam-se inicialmente os apêndices, depois o concreto barato. Caco a caco refaz o chão com mosaico simples, pronto para ser pisado. Mais uma vez, incompreendido.
As vigas ainda podem ser vistas ali ao centro, de pé, eretas. E pouco importam os desgastes. São imperceptíveis.
Renovam-se os esforços, serviço recomeçado... Abandonam o projeto falido pela metade. Mas aquilo que se sente, se ama, se teme, se toca, destrói ou incita indiferença não é metade. Farelo meu e seu, que você inspira e expira, que flutua sobre a minha e sobre a sua... Partículas suspensas! Alcanse-as se conseguir.