Estátua de vidro é como vivo, pequena e simplória
Sinto compasso escasso, que embalava meu passo mundo afora e multidão
Descanso pés de calos mal merecidos, coincidência de andanças poucas
Nunca pisei em porco-espinho, corri pelo asfalto nem em pedra de sal
Aguardo a própria partida, sento e espero, sou só meias feridas
Sensação sem pensamento, vive de inquietudes e se alimenta de agonia
Rezo todos os dias, peço perdão pela inércia, mas lá em cima ele é surdo
Ecoam aos meus ouvidos frases patéticas, me olho no espelho e cego.
Geladeira Vazia
31.7.06
Meu único objeto de desejo dos exatos 15 minutos que antecederam este momento [o da decisão de relato]. Certamente o tão exclusivo complemento meu dos próximos 15 que virão. Ele, só ele, presente em meia-lua de relógio que me marca. Meia hora é o tempo suficiente para me fazer confusa, e por completa. Meço inexatidão e relatividade da cabeça aos pés. Preciso esquecê-las, ou melhor, me esquecê-la por enquanto, pois esses 30 minutos apenas lhe pertencem.
Ele chega e ocupa minha atmosfera representativa. Tenho a sensação de sê-lo bem mais desejado em minhas lembranças. Diante das luzes, ele é meio a meio – e não foi por acaso que optei por apenas meia hora. Decisão difícil já que não consigo eleger o meio que prevaleça em mim para que eu siga avidamente. Ele é meio meu carinho único instantâneo e meio minha repulsa, tudo o que menos escolhi. E é sempre nesta meia hora que ele é muito grande, bem maior. Daqui de longe tudo parece tão pouco suscetível a imperfeições, embora uma de suas metades me cause náusea, daquelas de quando você fica remoendo e remoendo alfinetes enquanto seu objetivo consciente é nunca mais lembrar daquilo que o é aversivo. Sua outra parte é linda de estrondos e terremotos dentro de mim. E eu sempre a quis. A verdade é que minha cobiça maior sempre foi a de um ele duas vezes essa metade. É a que me olha com aqueles olhos cuja protagonista é apenas eu. Não tenho a convicção, entretanto, se lá estou em todos os seus instantes de monólogo. Mas isso faz parte do que julgo ser a outra banda...
Pressinto que agora o problema maior não se encontra em mim. Nesta meia hora que dedico a somente ele, lhe garanto mais que as chances de costume para que supra toda a nossa necessidade de bicho, e do mais cego, surdo e mudo bicho. Mas a sua espetacular metade de hora sempre chega ao fim. Volto a senti-lo tão equilibrado: ele é o meio que me congela silenciosamente e o que me repele. Este é ele pra mim. Meu ele.
11.6.06
Treinando minha inutilidade meio aos ansiosos do ponto de ônibus
De pé, absorta em minhas fantasiosíssimas fantasias. Retorno. CO2, CO2, CO2, COF, CO2, COF, COF, COF. Eita ônibus demorado! Conheço o atual motivo desse meu autismo.
Motivos deveriam vir com soluções em anexo, alternativas A, B, C, e D. Devo admitir aqui a inutilidade dessa minha idéia. Preguiçosa do jeito que sou, o assunto estudado sempre pela metade, pessoa que ama condicionalmente o apego "E", não poderia eu então abandoná-lo: "Nenhuma das alternativas anteriores". Meu fado. Tenho sorte e competência; consigo controlar meu fado. Giro, giro, giro todos os dias e, ainda assim, prolongo fielmente o meu contrato estabelecido comigo mesma. Continuo amando a aternativa de letra E, a da negação - ouvi um psicanalista falar sobre isso ontem e me atraiu bastante. Foram 2 orgasmos. Deve ser por isso que não a deixo, a solução. Solução, pra mim, sempre começou com a letra E. Eolução, vê? Palavra rica de lógica.
Talvez eu tenha mencionado que sentei e, enquanto a minha vizinha de banco solicitava pause para se perder automundo adentro, eu também praticava este esporte. Até quase fechei os olhos umas três ou quatro vezes. Acho que cheguei a fechar, mas ninguém percebeu. A menina está cochilando de tanto sono, coitada... E eu era só suspiros eu! Mas suspiro enjoa depois do terceiro. É doce demais e eu não pretendo morrer entupida por diabetes.
Retorno. Aquela dorzinha no peito que o povo diz que são gases. Um pouco de oniricismo dentro das minhas possibilidades. OK. Elas não são minhas [ainda]. Sempre peço emprestadas moedinhas para comprar um café e não dormir novamente na aula. Peço borracha, caneta, me emprestam até atenção. Por acaso, alguém aí não teria pra me emprestar um desses troços assim, que você bebe e "te dão asas", pílulas de ímpeto, sei lá o quê, algo que me fizesse decifrar a senha que não conheço quando estou acordada? De repente a perna sara e eu podia sair por aí sapateando, se eu soubesse sapatear.
Preciso pensar em alternativas alternativas - sim, alternativas alternativas, não um erro não detectado pelo Word - pra mim que não posso... Você sabe. Aí eu te contaria o meu segredo com os olhos e você o seu, com a boca. Não! Te contar com a boca e você com os olhos parece mais legal. Ai! Assim não também! Melhor mesmo seria eu com os olhos e você com a bo... Tsc, ah! Eu escolho par. Ímpar. Um, dois, três e já! Meu ônibus chegou. Merda! Demora tanto e sempre passam dois de vez!
2.6.06
Engraçada essa cidade provinciana. Tão pequena, pequenininha assim que cabe na palma da minha mão, que eu amasso e solto quando eu quero, acaba por se tornar tão grande agora, enorme ela, huge! Não faço idéia de onde [você] se esconde neste momento de puro queixume. É essa minha bendita falta de paciência, já dizia o cigano. Acho que me aproximo...
- Tá quente?
- Não. Gelado!
- Me dá uma dica.
Omisso, o lobo.
Sinto seu cheiro por toda parte dessa cidade gigantesca, que agora me engole e se vinga. Esse seu cheiro o qual desconheço, que nunca senti; cheiro de quando acabo de acordar, os olhos ainda fechados e o nariz entupido. Cheiro de café, melancia, sabão em pó, cheiro de roça com capim, de flor de plástico, de infância, cheiro do que virá, de aconchego do abraço que nunca senti dos braços só seus. Escolho todos!
Sinto cada um deles e começo a acreditar que já estou perto. Cada suposta pista, tola, leva-me a um caminho falso, de isopor, que estala, racha e bolinhas sobem. Procuro em todas as frestas, buracos, meticulosamente, pelas telhas, embaixo da cama e abro a geladeira.
- Tá frio.
Fecho os olhos, respiro fundo, não sinto. Vias congestionadas. Deficiente olfativa que estou, utilizo minha criatividade e apenas imagino. Agora posso sentir, e com nitidez. Sinto cheiro de chocolate! Sei como é chocolate, conheço bem em tempos de amargura, de alegria e em dias de domingo. Mas, mas... O que é este cheiro? Sim! É cheiro de pimenta! Não conheço cheiro de pimenta, nunca senti, nunca esteve pelos ares envolventes da minha presença - muitas vezes insignificante demais para se ter um cheiro.
Achei o ponto ótimo! Serotonina com ardor.
- Tá pronto, Seu Lobo?
- Tô. Pode abrir os olhos.
- Tá quente?
- Não. Gelado!
- Me dá uma dica.
Omisso, o lobo.
Sinto seu cheiro por toda parte dessa cidade gigantesca, que agora me engole e se vinga. Esse seu cheiro o qual desconheço, que nunca senti; cheiro de quando acabo de acordar, os olhos ainda fechados e o nariz entupido. Cheiro de café, melancia, sabão em pó, cheiro de roça com capim, de flor de plástico, de infância, cheiro do que virá, de aconchego do abraço que nunca senti dos braços só seus. Escolho todos!
Sinto cada um deles e começo a acreditar que já estou perto. Cada suposta pista, tola, leva-me a um caminho falso, de isopor, que estala, racha e bolinhas sobem. Procuro em todas as frestas, buracos, meticulosamente, pelas telhas, embaixo da cama e abro a geladeira.
- Tá frio.
Fecho os olhos, respiro fundo, não sinto. Vias congestionadas. Deficiente olfativa que estou, utilizo minha criatividade e apenas imagino. Agora posso sentir, e com nitidez. Sinto cheiro de chocolate! Sei como é chocolate, conheço bem em tempos de amargura, de alegria e em dias de domingo. Mas, mas... O que é este cheiro? Sim! É cheiro de pimenta! Não conheço cheiro de pimenta, nunca senti, nunca esteve pelos ares envolventes da minha presença - muitas vezes insignificante demais para se ter um cheiro.
Achei o ponto ótimo! Serotonina com ardor.
- Tá pronto, Seu Lobo?
- Tô. Pode abrir os olhos.
18.5.06
| A fila da frente causa-me um certo incômodo. O que vejo, vejo através de esferas juntas lado a lado. Encaixada, dialogo com a poltrona. Ela não me abraça por inteiro. Eu, desconfortável para poder ser aqui. O acento é macio. Sem que eu me desse conta de quando acontecera, passou a ser quante. Louvada troca de calor entre corpos! - Essas coisas assim que nos contam sem poesia no colégio e que a gente nunca mais esquece sem precisar lembrar todos os dias. Eu acreditei. Dúvida? Experimente. Assim que funciona a verdade: você repete e o resultado é a forma já premeditada, constatada por alguém que chegou antes e prestou este favor à humanidade. Repetição de procedimentos, repetição de resultados. Eu nem percebi, mas a poltrona tinha agora o meu calor e eu o dela. Somos uma só. Esqueço a figura estática, ludibriada por aquele que fala por entre as esferas irritantes e cabeludas. Olho para o lado, não o vejo mais. Está escuro. Esse riso não me pertence, não é meu esse riso vizinho. O meu brinca comigo e se esconde. Caiu por debaixo da poltrona e saiu rolando. Me inclino, me envolvo com o chão, mas a penumbra mora lá. Pupilas arregaladas! Reflexo inútil, já que olho grande ou pequeno não tem relevância quando se é cego. Aonde e quem diabos levou o meu? A poltrona puxa-me de volta e me reencosto abruptamente contra o que me dá limite para que eu não caia para trás, pernas para cima, depois estatelada. Todos rirem e eu, então protagonista, continuar a procura pelo meu espirituoso e lúdico? Ela me segura com força, puxa-me e dói. "Ai" xôxo, como quem tem pena da própria situação. Dialogo com a poltrona e tento entender seus motivos. Eu sou ela e ela eu. Esqueceu a nossa simbiose térmica? Ela me responde. - Eu, sólida. Olho para o lado e fito aquele boneco animado interagindo com o falante inter-esférico. - Solidão. |
10.5.06
A Construção [da Imagem] do Objeto
Partículas suspensas, divisíveis, que flutuam sobre as cabeças iniciadas...
Construir imagem exige um certo trabalho, muitas vezes não percebido, primeiramente automatizado e árduo a medida em que as folhas do calendário caem sutileza abaixo. Cansaço retardatário! Antes, a surpresa.
Complexidade para aquelas cabeças iniciadas; iniciadas no processo de composição da obra de arte, peça por peça. Aqui, o que não se encaixa é grudado com pinceladas pretensiosas de cola branca. Logo se esquece o desfalque.
No ápice da certeza estrutural, ilusoriamente formada, desmoronam-se inicialmente os apêndices, depois o concreto barato. Caco a caco refaz o chão com mosaico simples, pronto para ser pisado. Mais uma vez, incompreendido.
As vigas ainda podem ser vistas ali ao centro, de pé, eretas. E pouco importam os desgastes. São imperceptíveis.
Renovam-se os esforços, serviço recomeçado... Abandonam o projeto falido pela metade. Mas aquilo que se sente, se ama, se teme, se toca, destrói ou incita indiferença não é metade. Farelo meu e seu, que você inspira e expira, que flutua sobre a minha e sobre a sua... Partículas suspensas! Alcanse-as se conseguir.
Partículas suspensas, divisíveis, que flutuam sobre as cabeças iniciadas...
Construir imagem exige um certo trabalho, muitas vezes não percebido, primeiramente automatizado e árduo a medida em que as folhas do calendário caem sutileza abaixo. Cansaço retardatário! Antes, a surpresa.
Complexidade para aquelas cabeças iniciadas; iniciadas no processo de composição da obra de arte, peça por peça. Aqui, o que não se encaixa é grudado com pinceladas pretensiosas de cola branca. Logo se esquece o desfalque.
No ápice da certeza estrutural, ilusoriamente formada, desmoronam-se inicialmente os apêndices, depois o concreto barato. Caco a caco refaz o chão com mosaico simples, pronto para ser pisado. Mais uma vez, incompreendido.
As vigas ainda podem ser vistas ali ao centro, de pé, eretas. E pouco importam os desgastes. São imperceptíveis.
Renovam-se os esforços, serviço recomeçado... Abandonam o projeto falido pela metade. Mas aquilo que se sente, se ama, se teme, se toca, destrói ou incita indiferença não é metade. Farelo meu e seu, que você inspira e expira, que flutua sobre a minha e sobre a sua... Partículas suspensas! Alcanse-as se conseguir.
3.4.06
Quero ser especial!
Já ouvi por aí muitos se referirem a pessoas com distúrbios mentais como "especiais". Então, considerando toda a minha sanidade profundamente esburacada e meus atributos cognitivos limitados, eu sou especial. Bastante especial!
Mas o que viria a ser especial? Algo que fugisse do especialmente comum? Bem, não te digo a resposta e você morrerá sem saber. Eu sei o que é ser especial. Mentira! Soube agora; eu não sabia. Eu achava que sabia o que é ser especial. Quero ser especial como eu achava que sabia.
Eu queria ser especial assim... Vamos ver... Assim como os efeitos especiais, sabe? Se não fossem os efeitos especiais nesses filmes de ação entediantes, o que seria do pobre telespectador entediado, meu Deus? (Imagina o que se deve passar pela cabeç... Deixa pra lá!) Quero ser especial, com luzes coloridas, fumaças asfixiantes, explosões hipnóticas e... um dublê! Se eu fosse especial assim como eu achava que era ser especial e como eu queria ser, assistiria tudo de fora, bebendo uma água mineral e com uma toalhinha ao ombro alguém fazer a cena por mim para depois as pessoas facilmente persuasíveis se deleitarem com a minha especialidade, me aplaudirem de pé e celebrarem a minha forma especial de não ser.
Já ouvi por aí muitos se referirem a pessoas com distúrbios mentais como "especiais". Então, considerando toda a minha sanidade profundamente esburacada e meus atributos cognitivos limitados, eu sou especial. Bastante especial!
Mas o que viria a ser especial? Algo que fugisse do especialmente comum? Bem, não te digo a resposta e você morrerá sem saber. Eu sei o que é ser especial. Mentira! Soube agora; eu não sabia. Eu achava que sabia o que é ser especial. Quero ser especial como eu achava que sabia.
Eu queria ser especial assim... Vamos ver... Assim como os efeitos especiais, sabe? Se não fossem os efeitos especiais nesses filmes de ação entediantes, o que seria do pobre telespectador entediado, meu Deus? (Imagina o que se deve passar pela cabeç... Deixa pra lá!) Quero ser especial, com luzes coloridas, fumaças asfixiantes, explosões hipnóticas e... um dublê! Se eu fosse especial assim como eu achava que era ser especial e como eu queria ser, assistiria tudo de fora, bebendo uma água mineral e com uma toalhinha ao ombro alguém fazer a cena por mim para depois as pessoas facilmente persuasíveis se deleitarem com a minha especialidade, me aplaudirem de pé e celebrarem a minha forma especial de não ser.
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